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A disseminação do medo

                                      Irapuan Diniz de Aguiar.

                                          Advogado                                                     

     A pandemia e a violência são os assuntos que, quase exclusivamente, têm ocupado os espaços dos jornais, rádio e televisão nos últimos tempos. A cada dia o noticiário se restringe a exibição de dados alarmantes sobre a doença, testemunhos de familiares infectados pelo coronavírus, além da exacerbação das mais variadas formas de violência e do medo delas decorrentes, intranquilizando a vida de uma sociedade angustiada e indefesa. Logo cedo, somos despertados com as primeiras más notícias, as quais nos acompanham no café matinal. O fato repete-se, por ocasião do almoço e do jantar, completando o cardápio picante de todos os dias. Quando não são a mostragem dos números sobre o avanço da pandemia, a existência de uma terceira onda, a negligência do país na não recepção das vacinas, etc., são as informações sobre os desfalques, os “rombos”, os estelionatos, as fraudes, os desvios éticos e outras formas de corrupção.

     A pandemia e a violência deixaram, assim, de se constituírem em fenômenos, com causas sociológicas, psicológicas e científicas explicáveis nas respectivas áreas, para serem instrumentos da propagação do medo e da desesperança. Prenunciando-se como as mais graves patologias de saúde e social do século XXI, os dois fenômenos estão, paulatinamente, impondo limites ao convívio em sociedade. Os assaltos, com a destruição do patrimônio coletivo, orquestrados pelo crime organizado, são formas mascaradas do estabelecimento do “toque de recolher”, a que se soma o isolamento social imposto pelo receio do contágio do ‘coronavírus’, ocasionam graves consequências econômicas.  O cidadão que busca o sustento de sua família com muito sacrifício, vê-se, agora, mais do que nunca, refém do próprio medo, ante a ineficácia das políticas públicas voltadas para a geração de emprego e renda no país. A população vive, nos dias presentes, sob a síndrome do medo. A despeito da triste constatação de que o Estado brasileiro há se mostrado sem condições de enfrentar, com eficiência, o combate a pandemia e o crime organizado, que mutila, tortura e mata, não deve a imprensa, sob qualquer ótica, contribuir para causar pânico na população pinçando o que mais negativo há dos fatos e os publicando em manchetes sem abrir espaço para as ações positivas em curso na perspectiva da superação dos graves problemas. Agora mesmo, ao alcançar a triste marca das 500 mil mortes pela pandemia, plenamente previsível e já esperada, o noticiário da imprensa dedica grandes espaços e programas especiais para enfatizar o triste acontecimento. Cumpre indagar, qual a diferença entre 498 mil ou 500 mil mortes, senão o lamento de toda uma população?

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