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Órfãos de uma guerra urbana

Sempre quando falamos sobre guerra apontamos para o número de mortos. Por exemplo: Na segunda grande guerra, estima-se que cerca de 36,5 milhões de europeus morreram, entre 1939 e 1945. Os números são assombrosos. Conflito algum registrado pela história matou tanta gente em tão pouco tempo. Mas a guerra produz outro número, também assombroso, que são os órfãos. Na Tchecoslováquia libertada havia 49 mil pequenos órfãos; na Holanda, 60 mil; na Polônia estima-se que o número de órfãos estivesse em torno de 200 mil; na Iugoslávia, talvez 300 mil. 

A palavra órfão vem do grego orphanos, cujo sentido é “destituído”. Corresponde ao vocábulo hebraico yathom, que significa “solitário”, “sem pai”. Adaptando esse conceito de órfão ao front urbano, trata-se de menor de idade que perdeu pai ou mãe (ou ambos) mediante morte violenta.

No Estado do Ceará, até junho de 2021, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), os homicídios já ultrapassaram o macabro número de 1.000 pessoas mortas. Se contabilizarmos o período do governo Camilo Santana (janeiro de 2015 a junho de 2021) a quantidade desse tipo de ocorrência criminal chega próxima a 30 mil assassinatos. Esse número é mais da metade dos 58 mil soldados americanos que morreram na guerra do Vietnã. Levando em conta que naquela guerra eram usados morteiros, armas longas, tanques, aviões e helicópteros, que são armas e equipamentos com mais poder destrutivo do que as usadas nos assassinatos nas cidades cearenses. Isso torna a nossa guerra urbana mais bárbara. 

Apesar da frieza algoritmia a quantidade de homicídios no Ceará não se trata apenas de uma estatística. São pessoas mortas de forma violenta em um território formalmente pacífico e de filhos que ficaram órfãos. Contudo, essa orfandade não pode ser contabilizada apenas pela morte dos pais, mas também por sua ausência em caso de prisão ou fuga, fazendo com que esse número se torne mais assustadoramente expressivo.

Vale lembrar que violência não é causa, e sim consequência do fracasso das políticas públicas adotadas pelo governo. Violência é o somatório de investimentos sem eficácia, tornando-se em desperdício de dinheiro público. Esse fracasso acaba gerando morte, sofrimento e desamparo. 

Plauto de Lima

Cel PM e Líder do Núcleo de Segurança do Podemos/Ce

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