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Fortaleza, cidade de Pero Coelho – X

Depois de longo interregno, retorno ao tema a que me propus discorrer, cujo objetivo é resgatar a respeitabilidade e importância do nobre açoriano Pero Coelho de Sousa, não o principal colonizador do Ceará, título que pode ser concedido a Martim Soares Moreno, mas, sem favor, foi ele, Pero Coelho, o fundador de Fortaleza e do Ceará. Insisto em observar que a expedição de Pero Coelho não foi um fracasso e, em vista das imensas intempéries, configurou inegável sucesso, posto que se bateu contra os franceses, que já haviam se apossado da Ibiapaba em conluio com os poderosos chefes índios Diabo Grande e Mel Redondo.

A saga de Pero Coelho e seus comandados, iniciada em janeiro de 1603 é digna de registro como uma ação de coragem extrema e de heroísmo ímpar. Dessa saga extraordinária dá notícia, com detalhes, Frei Vicente de Salvador, um dos primeiros historiadores da nova terra, cuja “História do Brasil”, capítulos iniciais de 1627, só teve texto completo publicado em 1888, com revisão e comentários de Capistrano de Abreu.

Iniciada na Paraíba, passando pelo “País do Jaguaribe”, indo depois “ao Camocy, que é a Barra da Serra do Boapaba”, a expedição enfrentou as agruras da natureza, do clima e a reação do inimigo bravo e bem armado pelos franceses. Conta Frei Vicente de Salvador, que em determinado momento, ainda no fragor das primeiras batalhas, o capitão Pero Coelho “mandou matar um cavalo, que ainda levava, para confortar os soldados, que aos mais era impossível chegar, porque entre grandes e pequenos eram mais de cinco mil almas.” Esta informação, com realçar a temeridade do empreendimento, demonstra que aos cerca de mil guerreiros do início da jornada do capitão açoriano, juntaram-se outros milhares de aventureiros durante a caminhada, inclusive crianças.

Foram várias renhidas batalhas até ser tomada a mui guarnecida fortaleza de Mel Redondo, em cujos combates, que duraram dois dias, “nos mataram três soldados brancos e feriram quatorze, fora muitos índios, mas, enfim, foi tomada, e dez franceses que estavam dentro, que os mais fugiram com o gentio…” Diabo Grande, Mel Redondo e Ubaúna, outro respeitado chefe, finalmente entregaram as armas em sinal de paz. Caído o último reduto inimigo, os maltrapilhos, exaustos, estropiados soldados de Pero Coelho não mais consentiram que continuasse a jornada em demanda do Maranhão, forçando a retirada até à Barra do Ceará. O que sucedeu desde então muito já foi dito nos artigos antecedentes.

Na verdade, faltou a Pero Coelho a disposição de um gênio igual a José de Alencar para tecer-lhe a louvação em exercício ficcional que poderia tê-lo mitificado até em mais elevado pedestal do que foi alçado o colonizador Martim Soares Moreno, não menor, mas jamais o fundador do Ceará, como o demonstra a história, se estudada com meticulosa atenção por mentalidades desvestidas de conceitos já assentados a esse respeito. Um intelectual, porém, não esqueceu de louvar-lhe as qualidades do guerreiro e a grandeza do herói, lembrando em versos dolentes as marcas que o destino deixou na carne e na alma do fundador do Ceará.

O maranhense Humberto de Campos, poeta e cronista insuperável, não descuidou de homenageá-lo com soneto de título apropriado: “Pero Coelho, descobridor do Ceará”. Eis os versos: Na humildade do cárcere de Olinda/ – Enjaulado jaguar que a vida acaba/ Lembrando a selva rumorosa e linda -/ Sonha o conquistador da Ibiapaba./// O sonho é o resto da jornada: é a vinda;/ É a morte; é a sede; é o desespero; a taba/ Toda investindo. A terra em fogo. Um baba;/ Outro cai; outro fica; outro se finda…/// Dois filhos morrem nos seus braços: vede!/ E nem, sequer, irmão de Agar, tem perto,/ Nos olhos, água que lhes mate a sede!/// E, ao fim de tudo, acusações e gritas…///Ah, por que não tombara no Deserto/ Abraçado com os seus israelitas?!…”

BARROS ALVES
JORNALISTA, POETA E ASSESSOR PARLAMENTAR

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