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Patrulhamento ideológico e preconceito

Nos dias hodiernos há um estúpido patrulhamento ideológico travestido de humanismo, contra o preconceito. Claro, que um “pré-conceito”, ou seja, um conceito ou juízo de valor assentado “à priori” a respeito de qualquer assunto é algo um tanto quanto temerário. Todavia, temeridade maior configura a dogmatização de ideias e ideais. Quero dizer que não se pode dogmatizar algo como preconceito, sem uma abalizada motivação que assegure legitimidade à argumentação anti-preconceito. Porque todos, em maior ou menor grau, temos preconceitos. Isto em razão daquilo que faz parte de nossas inexoráveis vivências e convivências e que o teólogo Inácio Larrañaga denomina “contorno vital”. O padre e escritor Neri Feitosa explica: “Você não é herdeiro de qualidades e deficiências de muitos ancestrais, na estrutura física, sanitária, moral e psíquica. Antes de ser uma pessoas, você pertence a uma, duas ou mais famílias, cada uma com sua carga de valores e de fatores negativos.” Ademais, a demonização de determinados preconceitos pode levar ao esquecimento importantes processos culturais registrados na nossa história, os quais se não forem extirpados em nada modificarão a conduta normal das pessoas. Exemplo simplório: deixar de ensinar a música do cancioneiro infantil “Atirei o pau no gato”, sob a alegação de que vai tornar crianças violentas com os animais constitui, no mínimo, uma ingenuidade. Mas, esse modo de releitura cultural arrimado no “politicamente correto” está se tornando um tabu e ao tempo em que limita a criatividade, está imbecilizando as pessoas. Paradoxalmente, as mesmas pessoas que alardeiam defender a liberdade de expressão e a democracia.

Felizmente, neste meu pensar não milito solitariamente. Johann Gottfried von Herder, filósofo alemão do século XVIII, escreveu “Uma Outra Filosofia da História”, obra basilar para se entender processos culturais. Segundo von Herder , “O preconceito é bom no seu tempo, porque deixa feliz. Traz os povos de volta ao seu centro, prende-os com mais solidez à sua base, torna-os mais florescentes segundo seu próprio caráter, mais ardorosos e, por conseguinte, também, mais felizes em suas tendências.” De igual modo, Maurice Barrés, jornalista e político francês dizia que os preconceitos de um povo o mantêm alerta e altivo. E, convenhamos, a pior coisa para indivíduos e nações é a frouxidão de propósitos, o desvanecimento de convicções. Os que dizem que não têm preconceitos são mentirosos e/ou hipócritas, senão frouxos de caráter.

Por oportuno, conto-lhes uma breve história real. Faz algum tempo, estava eu, pobre mortal ignorante, educadamente ouvindo a parlapatice de um sabichão marxista que devaneava a sonhar com a cubanização do Brasil. E determinado momento, em tom de reprimenda ouvi dessa figura dinossáurica, já falecida, severa crítica em razão de minhas posições anticomunistas e “desumanas”, segundo ele. Dizia-me ele ser inconcebível que um intelectual (agradeci-lhe elo “intelectual”), se posicionasse contrário ao homossexualismo e à jurisprudencialização da união homoafetiva. A conversa descambou para os desmandos político-administrativos do Brasil então sob o (des)governo lulocomunopetista, diante dos quais o dito cujo, que era jornalista e liderança do Partido Comunista do Brasil, fazia vista grossa. Em determinado momento, o meu interlocutor, que se dizia desvestido de preconceito, diante da minha afirmação de que o senador tucano Álvaro Dias, na época empavonado membro do tucanato, cumpria com competência, naquele momento da discussão, seu papel de oposicionista, de imediato o homem sem preconceito à minha frente saltou para trás e quase gritou: “Aquele é uma bichona!!!”. Que o leitor tire suas próprias conclusões.

Barros Alves é jornalista, poeta e assessor parlamentar

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