Menu fechado

Em três anos, 41 decapitações no Ceará: O que isso diz em relação à violência no Ceará? Muito!

Prof. José Raimundo Carvalho
Diretor do Colégio de Estudos Avançados da UFC e CAEN/UFC

A partir de meados da década de 2010, já estava claro que a criminalidade do Ceará havia mudado de uma atividade homicida clássica (motivada por desigualdades de renda e pobreza, ou seja, a confortável e badalada seara histórica da maioria da “intelectualidade especialista” vigente) para uma criminalidade radicalmente nova, ou seja, aquela “turbinada” pela luta sangrenta pelo controle do Ceará como entreposto logístico e comercial da nova rota de drogas internacional (rota do Solimões). O “gatilho” foi o “racha” nacional entre PCC e CV ocorrido a partir de 2016, após a espetacular ação na cidade Pedro Juan Caballero, Paraguai.

Essa sutil, mas profunda mudança estrutural no equilíbrio narcotraficante e criminoso entre as duas maiores organizações criminosas brasileiras, redesenhou a dinâmica homicida em todo o Brasil, em especial nas regiões norte e nordeste, e de maneira absolutamente única e nefasta no estado do Ceará. Esse novo paradigma homicida foi fielmente corroborado pelo surgimento e consolidação de siglas como Guardiões do Estado – GDE (Ceará) e Família do Norte (Amazonas e Pará). Todos aqui sabiam disso à época, ou deveriam saber.

Desde 01/01/2015, o Ceará acumula bem mais de 25.000 homicídios, cifras de guerra civil. Não apenas isso, o Ceará se transformou em um paraíso de grupos criminosos, uma rota preferencial de narcotráfico para o norte da África e Europa, um local de recordes de assassinatos de jovens, especialmente do sexo feminino, de chacinas, uma sociedade testemunha de ondas de ataques narco-terroristas que deixaram o estado absolutamente à mercê da dinâmica criminal e extremamente dependente da ajuda federal (financeira e logística). Um Rio de Janeiro de Brizola piorado, versão apocalíptica …

Barbárie após barbárie, gestão após gestão da segurança pública no estado, apenas vemos NADA. Uma sucessão de tentativas desesperadas, despreparadas de resolver um problema cada vez maior, simplesmente “vôos de galinha”.

Esse indicador de decapitações, por mais chocante e asqueroso que possa parecer, é real e importante. Diz muito. Ele escancara o fato da sociedade cearense, infelizmente, ter se tornado insensível com suas intermináveis cifras exorbitantes de homicídios. Morrer assassinado aqui se banalizou. É preciso mais, é preciso aumentar a temperatura, o brilho, o gosto de sangue, sentir o arrepio até dar náusea para ser ter alguma chance de motivar uma discussão séria, ou quem sabe pelo menos um bocejo em direção a uma possível ação concreta. Sem rumo, sem plano, sem qualquer noção, novamente … novamente, a gestão estadual de segurança pública do Ceará segue perdida e trôpega para 2022, desesperada para que chegue logo o ano de 2023.

https://www.smp.news/2021/11/17/em-tres-anos-ocorreram-41-decapitacoes-no-ceara/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.