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Religião e Política

… “devemos os cristãos ter discernimento para saber o que César (os poderes terrenos, as potestades) está querendo subtrair de Deus”, aponta em artigo o jornalista e poeta Barros Alves

O debate político ao longo da história da humanidade sempre comportou uma ligação subreptícia ou explícita com a religião. Desde tempos imemoriais o imaginário do ser humano em sua busca pelo poder está figadalmente ligado ao sentimento religioso. As mitologias com seus deuses e semideuses, normalmente guerreiros, povoam os relatos da formação de sociedades, aí incluídas as mais avançadas para os seus períodos como a egípcia e a greco-romana, onde os reis faziam crer que eram deuses ou pelo menos chancelados por seres espirituais superiores. Ao longo do tempo, essas compreensões da ação política humana subjazendo à ação da divindade, somente se aperfeiçoaram e adotaram novos modus operandi no cotidiano das sociedades modernas e contemporâneas. As teocracias, por exemplo, ainda estão bem vivas. É só olhar para o mundo oriental, sobretudo o islâmico, onde a lei civil, a Sharia, se confunde inexoravelmente com a Lei de Allah, o Corão Sagrado. Os aiatolás iranianos são sacerdotes de Deus (Allah) e governantes. Assim também ocorre e em mais profundo grau no Afeganistão dos Talibãs (vocábulo que significa estudantes de teologia), os mulás transmitem as ordens de Deus para governar o povo. No ocidentalizado Japão não faz muito tempo que o rei era considerado um Deus e aquela sociedade imensamente tecnologizada não viu ainda a política se desvincular dos vetustos e milenares templos budistas.

No mundo cristão a história está prenhe de exemplos desse imbricamento entre política e religião, sendo o maior legislador da civilização judaico-cristã da qual o Ocidente é herdeiro de imensa e poderosa tradição, o Moisés bíblico, a quem se atribui a escritura do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, a qual contém uma brevíssima Constituição de dez artigos, os DEZ MANDAMENTOS, e uma detalhada legislação complementar e ordinária registrada nos livros de Números, Levítico e Deuteronômio. A maioria dos profetas exerceu política com entusiasmo, preocupados com os destinos do povo hebreu enquanto nação, mesmo nos dolorosos momentos de exílio. Fez política e fez guerra para preservar direitos e, sobretudo, a pureza moral e religiosa contida nos ensinamentos ancestrais transmitidos oralmente de geração a geração, através dos anos, desde que Abraão, nosso pai na fé, saiu da cidade de Ur, na Caldeia, para se estabelecer na terra que Deus lhe prometera.

No período neotestamentário o legado de ensinamentos deixado pelos primitivos cristãos, no tocante à participação na política ou em face dela, a partir da pregação de Jesus, o Cristo, é caudalosa. A piedade do Cristo não o abstraiu da proatividade política, como um ato moral em favor do seu povo, naquele tempo subjugado pelo Império Romano. Jesus não se submeteu aos desejos revolucionários dos iscariotes, uma espécie de esquerda da época, da qual fazia parte um dos seus discípulos, Judas, o traidor; mas também não quedou diante do Império invasor, tanto isto é verdade que o acusaram politicamente de ser o “Rei dos Judeus” e de tentar sublevar o povo. Mesmo que ele dissesse claramente que o reino dele não era deste mundo. Por outro lado, numa sociedade em que os sacerdotes fariseus e saduceus, senhores do Templo e do Sinédrio (Supremo Tribunal) detinham também o poder político e conluiavam com o invasor, não foi difícil imputar a Jesus o crime de blasfêmia – o pior crime – por ele se autoproclamar Filho de Deus. Todavia, a política exercitada por Jesus está definida na resposta à provocação de um sacerdote no episódio da moeda. “De quem é esta moeda”, indagou o hipócrita, sepulcro caiado, na tentativa de pegar Jesus pelo pé. Sabiamente Jesus disse: “Dai a César o que é de César; a Deus o que é de Deus.” No mundo atual, no Brasil atual, devemos os cristãos ter discernimento para saber o que César (os poderes terrenos, as potestades) está querendo subtrair de Deus. A César só o que lhe é devido como criatura, porque tudo pertence a Deus. O que disto passar vem do maligno.

Barros Alves é assessor parlamentar, jornalista e poeta.

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