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REFLEXÕES SOBRE A NATIVIDADE DO SALVADOR

Para além de filigranas e especulações teológicas, inicio estas breves reflexões reafirmando minha crença no dogma de fé da Igreja Cristã de que Jesus, o Cristo, é Deus encarnado, segundo o definido no Credo nicenoconstantinopolitano. Com efeito, o mais extraordinário evento ocorrido na história da humanidade é o nascimento daquele menino em um ambiente hostil, em Belém da Judéia, a demonstrar para o mundo inteiro, em todos os tempos, que a ação de Deus na história humana manifesta-se pelo caminho da humildade, uma novidade repleta de significados distantes dos rituais do Templo, onde pontificava a arrogância do poder temporal arrimado na hipocrisia de uma religiosidade vazia.

Diz-se que o Filho de Deus, ou o mistério da encarnação de Deus, ocorreu na plenitude dos tempos, porque todas as situações – política, econômica, social, cultural – da época continham certa universalidade propícia aos desdobramentos que se seguiram à ação em torno daquele menino que, mesmo sendo rei, nascera numa estrebaria e dera o primeiro suspiro entre cabras, vacas e outros bichos. Lembre-se que sob o Império romano invasor estava toda a região onde se situa a cidade de Belém, cuja população, mesmo conservando alguns direitos, era obrigada a seguir retilineamente os mandamentos do César de plantão, no caso Tibério. Assim, naquele universo sócio-cultural, todos falavam a mesma língua, se submetiam as mesmas regras, sofriam as mesmas angústias, suportavam os mesmos sofrimentos, almejavam a salvação que viria por intermédio de um Messias, promessa reafirmada ao longo do tempo pelos profetas de Israel. O nascimento de Jesus, portanto, significou para muitos a possibilidade da libertação política esperada pelo povo. Mas, nesse sentido logo veio a decepção, porque o reino do Menino não é deste mundo, conforme a observação formulada diante de Pilatos (Jo. 18.36). Aqui está o ponto fulcral da economia da salvação na visão do Cristianismo e a importância imensurável, sobrenatural, maravilhosa, por poucos compreendida, quando se trata da natividade de Jesus. O fato irretorquível para a fé cristã é que “em Jesus é o próprio Deus que chega e, desse modo, confere à história a sua definitiva direção”. (Joseph Ratzinger).

Diante da dificuldade daquele povo oprimido de compreender a salvação messiânica onde não estava contemplada a revolução temporal, a rejeição foi imediata, não obstante, as inumeráveis demonstrações do Cristo que deixavam patente sua divindade, sem deixar de prover necessidades imediatas dos seres humanos. Ao renegarem o Cristo, o Deus encarnado, ao preferirem o temporal em detrimento do divino, houve uma inexorável quebra de relação com o sagrado. “O homem é um ser relacional; se fica perturbada a primeira relação fundamental do homem – a relação com Deus – então nada mais pode estar verdadeiramente em ordem.” (Joseph Ratzinger). Ao rejeitar o Cristo o ser humano rejeitou a Natividade de Deus, dispensou a ação redentora daquele que desceu à miséria humana, fez-se homem e habitou entre nós. Não há como ser cristão sem aceitar a plenitude da verdade exposta na natividade de Deus entre nós. Daí é que qualquer teologia que olvidar esse aspecto essencial para a salvação, substituindo-o por ensinamentos que priorizem a salvação de corpos antes da salvação das almas, não passa de anátema, como diria o apóstolo Paulo. Somos pó e ao pó retornaremos inexoravelmente. A libertação de que nos falou e que veio nos trazer o Menino nascido em Belém é a salvação da alma, é a beleza da Eternidade junto ao Pai. Assim nos ensinam o Evangelho, assim nos leciona o magistério da Igreja desde os Pais e Padres Apostólicos. Assim haveremos de permanecer, conscientes de que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja fundada pelo Menino.

Barros Alves, jornalista, poeta e assessor parlamentar

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