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Ciro Gomes nos “Diários da Presidência” de FHC (Parte 2)

“Depois da eleição de FHC, o ninho tucano não disponibilizara o aconchego que Ciro julgava merecer”, aponta em artigo o jornalista e poeta Barros Alves

No artigo anterior vimos, segundo o relato de FHC em seus “Diários da Presidência”, vol. 1, o processo conflituoso entre Ciro Gomes e o ex-presidente. FHC não fez qualquer esforço para Ciro participar do governo, apesar de ter oferecido a ele o Ministério da Saúde, prontamente rejeitado pelo tucano rebelde. Na verdade, depois da eleição de FHC, o ninho tucano não disponibilizara o aconchego que Ciro julgava merecer. Por agora, veremos as referências contidas no vol 2 dos citados “Diários”, correspondente aos anos de 1997 a 1998.

Depois de um ano de estudos em Harvard, que as más línguas dizem não ter passado de um curso de extensão com a assistência a palestras em fins de semana, com o apadrinhamento do amigo Mangabeira Unger, eis que Ciro retorna atirando para todos os lados e, mesmo que ainda filiado ao PSDB, articula com o PPS, PSB e PV a criação de um novo partido com vistas às eleições de 1998. Com ele candidato à presidência, claro. FHC alerta as lideranças tucanas para não deixarem Ciro solto. “Acho que estamos nos atrasando em puxar o Ciro mais para perto de nós, porque ele pode dar dor de cabeça.” (pág. 300). FHC explica porque não procurou o Ciro para conversar. Foi aconselhado por Tasso a não fazê-lo: “O Tasso conhece bem o Ciro e achou que ele ia ficar com a bola cheia, difícil de controlar. Certo ou errado, no Ceará eu tenho que seguir o Tasso, e não o Ciro, que pula para cá, pula para lá, dá argumentos ‘ad hoc’, nunca rompeu comigo, nunca o maltratei, nunca falei mal dele, está fazendo uma grande onda aí.(pág. 306). FHC considera o livreto que o Ciro escreveu com Mangabeira Unger a partir de Harvard (“O próximo passo: uma alternativa prática ao neoliberalismo”), “um livro lamentável.” Lamenta que Ciro esteja se articulando com seus adversários, com Zé Dirceu, inclusive. Fica claro que Ciro ao criticar o neoliberalismo estava assestando suas baterias contra o presidente da República. Ele estava pavimentando o terreno para se colocar na sucessão.

Em 14 de setembro de 1997 Ciro concede entrevista à “Folha de São Paulo”, e deixa FHC irritado. Considera que Ciro não foi maldoso, foi leviano. “Esse rapaz é um precipitado, fica respondendo àquilo que ele imagina que sejam as minhas decisões sobre ele, que eu teria manobrado para ele ser governador do Ceará, e eu não manobrei coisíssima nenhuma. Acho o Ciro uma pessoa, como é que eu vou dizer… de pouca densidade, um exibicionista, está obviamente aproveitando todas as brechas para fazer o nome dele, mas sem estar apoiado num trabalho consistente.” (pág. 321). FHC lembra que Ciro foi ministro do Itamar Franco para tapar um buraco, algo por acaso. “Como ministro o Ciro foi um desastre; como governador do Ceará, segundo o Tasso, foi péssimo administrador. É um rapaz precipitado, ataca um, ataca outro; não há uma palavra minha sobre o Ciro e fica aí o Ciro me atacando para aparecer, para conseguir uma projeção maior do que ele deveria ter realmente. É um sub-Lacerda, um sub-Collor, bom mesmo é que fique lá pelo Ceará ou venha para a Câmara, que faça o que quiser, mas me deixe em paz. Já estou cansado de gente desse tipo.”

17 de setembro de 1997, novo tiroteio de Ciro contra FHC no jornal do Brasil, apesar de ainda filiado ao PSDB. Costura uma candidatura, mas se assusta com a possibilidade de um possível aliado, o Itamar Franco, ser candidato pelo PMDB. E Itamar já prega aviso de que Ciro estaria fora da sua equipe econômica caso viabilize a candidatura. “…a equipe econômica não estaria querendo se lembrar dele, querem borrá-lo da História…” O processo de desembarque do ninho tucano continua e Ciro, pelo visto, enganou até o Tasso. Prometera que sairia do PSDB sozinho, mas estava tentando cooptar até o líder do governo na Assembleia Legislativa do Ceará, o deputado Manuel Véras; e o então homem de confiança de Tasso, o senador Sérgio Machado. Para FHC, Tasso demonstrou irritação com a atitude de Ciro. (pág. 346). Ciro desembarcou no Partido Popular Socialista – PPS, genérico mal acabado do Partidão, comandado pelo deputado pernambucano Roberto Freire. Naquele momento FHC registra: “Curioso esse rapaz: ambicioso, carreirista, tem talento, não é vulgar, mas atropela muito, e o comportamento dele nos últimos tempos deu má impressão. Eu tinha dele uma melhor impressão, quis até que fosse ministro, já registrei mais de uma vez que eu queria reatar as relações com ele, mas de repente talvez tenha sido melhor não reatar (…) Não é uma pessoa, digamos, construtiva (…) é um fenômeno tipo Collor, uma coisa de aparecer, algo assim.” (pág. 360).

Novembro de 1997. Itamar Franco convida FHC para o casamento de sua filha e o presidente confirma presença já prevê que lá estarão alguns de seus adversários, Sarney, Paes de Andrade, o próprio Ciro. Faz comentários: “Ciro é um grande demagogo. Itamar é uma pessoa de caráter, o Ciro é mais duvidoso, porque é oportunista, não no sentido do Itamar, de aproveitar a oportunidade. O Ciro cria, ele faz declarações que não são verdadeiras, finge que sabe das coisas. Na verdade, é mais irresponsável do que oportunista.” (pág.391). FHC compareceu ao casamento da filha de Itamar, no dia 16 de novembro de 1997. Lá estava Ciro a esperá-lo na entrada do ambiente. FHC registra: “Segundo o Sarney, ele fez questão de estar na porta. Isso no mesmo dia em que ele mencionou que eu não teria autoridade moral pra falar de pobres. Não dá para aceitar, eu custo a dizer essas coisas, mas, diante do comportamento dele, não posso me limitar a dizer que ele é oportunista. É pior do que oportunista; esses vaivens não demonstram bom caráter.” (pág. 393).

O PPS lança a candidatura de Ciro à presidência da República, que continua a atacar FHC “quase pessoalmente, o que dificulta o diálogo.” Com efeito, Ciro, “pelo temperamento e pela falta de formação à esquerda”, cria situações constrangedoras para uma campanha eleitoral que se prevê por demais complexa. Em 3 de fevereiro de 1998, Ciro deu declarações ao jornal Correio Braziliense, “contando fatos inverídicos”, que FHC tratava Serra com palavrões, o que o presidente nega. Considera que Ciro é um mitômano e que “está caindo no ridículo.” E assevera: “Se não fosse o Brasil, não serria perigoso. Sendo o Brasil, esse estilo meio populista, meio Jânio Quadros, não sei bem o que vai dar.” (pág.481). O clima continuou esquentando, as pesquisas apresentando bons índices para FHC e as oposições atirando. Em 18 de junho de 1998 o registro: “Brizola disse muita besteira, o Ciro foi oportunista”. Refere-se a uma carta que o Ciro teria enviado ao presidente, mas que ele não recebera. Em entrevista ao Jornal do Brasil, Ciro Gomes acusou o presidente de se valer dos contatos com donos de redes de Televisõ para limitar suas aparições em programas de entrevistas. “Fernando Henrique está revelando uma falta de escrúpulos chocante”, disparou o candidato do PPS, que anunciou o envio de uma carta a FHC sobre a suposta intervenção presidencial na mídia. FHC observa: “(…) não sei se mandou mesmo, dizendo que o que me restava de escrúpulos…Se ele fez isso, vou devolver, dizendo que carta de oportunista, de carreirista, não merece minha atenção.”

Tasso está entre a cruz tucana e a espada de Ciro. FHC diz compreender esse dilema shakespeareano, até porque Ciro Gomes está bem nas pesquisas apenas no Ceará. Mas, continua reclamando das atitudes de Ciro que, segundo disse, até chorou num culto evangélico, alegando ter sido traído por ele, FHC. Eleições realizadas, FHC vence folgado, menos no Ceará, porque Tasso fez corpo mole em favor do Ciro. FHC diz que Tasso deveria ter derrotado Ciro. Poderá se arrepender. Profetizou com acerto. Finalmente, eleitos os governadores, no Rio de Janeiro a vitória coube a Garotinho, outro fanfarrão. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro-FIRJAN teria apresentado o nome do Ciro para a Secretaria da Fazenda. “Como Eduardo Eugênio Gouveia Vieira veio aqui ontem, disse como foi o Ciro como Ministro da Fazenda: irresponsável. Enfim, isso é de menos.” A Firjan voltou atrás.

Barros Alves é jornalista, poeta e assessor parlamentar

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1 Comentário

  1. Antônio Alves Gomes

    Nem o povo de Sobral tolera os Ferreira Gomes. Foi instalado no Estado do Ceará a cultura do medo, até o judiciário é apavorado com os Ferreira Gomes!!?!?

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