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O elogio da bandidagem
de Princípios

Com a língua solta em sua sexta campanha para o Palácio do Planalto, Lula tem revelado segredos que o seu partido preferiria esconder. Em um discurso na sexta, 17, ele admitiu que procurou o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o ministro da Justiça Renan Calheiros para solicitar, em 1998, a libertação dos sequestradores do empresário Abilio Diniz. Naquele ano, os criminosos — cinco chilenos, dois canadenses, dois argentinos e um brasileiro — já estavam presos havia dez anos pelo crime, cujo objetivo era levantar 30 milhões de reais para financiar o grupo terrorista Movimento Esquerda Revolucionária, o MIR do Chile.

A louvação dos sequestradores é mais um sintoma da inclinação petista para romantizar e desculpar atos contrários à lei, contanto que seus protagonistas sigam sua cartilha de esquerda. Desde que, ainda em 1989, o delegado Romeu Tuma e o secretário de Segurança Pública, Luis Antônio Fleury Filho, afirmaram que havia material de propaganda do PT, como bandeiras, camisetas e bandeiras, com os sequestradores, o partido negou qualquer vínculo com o MIR do Chile. Havia ainda o temor de que o crime pudesse atrapalhar Lula em na eleição presidencial, a qual acabou sendo vencida por Fernando Collor. O PT sempre procurou se desvencilhar publicamente do MIR, mas em privado seguiu próximo ao grupo. O MIR participou, por exemplo, de diversas reuniões do Foro de São Paulo, idealizado pelo PT e pela ditadura cubana para reunir movimentos de esquerda na América Latina. As atuais declarações de Lula indicam que esse comportamento não se alterou. O MIR foi mais um agraciado pela inversão moral petista, assim como as Forças Armadas Revolucionária da Colômbia e o terrorista italiano Cesare Battisti.

Nenhum dos crimes praticados por essa trupe podem ser comparados a uma brincadeira juvenil. Abilio foi cercado pelos sequestradores em dois carros, encapuzado e levado para um cativeiro no bairro do Jabaquara, zona sul de São Paulo. Foi colocado num cubículo subterrâneo de 5 metros quadrados, onde respirava o ar que entrava por dois pequenos buracos. Abilio foi solto seis dias depois, três quilos mais magro. No evento de campanha do dia 17, Lula chamou os sequestradores de “meninos”, com os quais foi papear dez anos depois do crime. “Eles estavam em greve de fome e iam entrar em greve seca, que é ficar sem comer e beber. A morte seria certa. Aí, então, eu fui procurar o ministro da Justiça, chamado Renan Calheiros”, disse Lula. “E eu fui à cadeia no dia 31 de dezembro conversar com os meninos e falar: ‘Olha, vocês vão ter de dar a palavra para mim, vocês vão ter de garantir pra mim, que vão acabar com a greve de fome agora, e vocês serão soltos. Eles respeitaram a proposta, pararam a greve de fome e foram soltos. E eu não sei onde eles estão agora.”

O italiano Cesare Battisti envolveu-se em quatro assassinatos em seu país. No primeiro, matou um policial com tiros nas costas e duas balas na cabeça. No segundo, de um joalheiro, Battisti foi o mandante. A vítima reagiu e atirou contra o próprio filho, que ficou paraplégico. Em seguida, foi atingida por uma bala na cabeça. A terceira foi um açougueiro, que caiu no chão depois de dois disparos. Battisti ainda se aproximou e deu um tiro de misericórdia. O quarto assassinado foi outro policial, à queima-roupa. Quando o terrorista, integrante do Proletários Armados Pelo Comunismo (PAC), foi encontrado pela polícia, estava em um local abarrotado de armas. Pegou treze anos de prisão. No Brasil, desde 2004, foi protegido pelo PT, que impediu sua extradição para a Itália. Quando o governo de Michel Temer ameaçou reverter seu refúgio antes disso, integrantes do PT, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MST, e do Sindicato dos Trabalhadores da USP, Sintusp, fizeram contato com o então presidente boliviano Evo Morales, para tentar encontrar outro refúgio para o criminoso, segundo o terrorista admitiu para a Folha. Battisti acabou sendo preso na Bolívia, em 2019, e enviado para cumprir pena na Itália.
As Farc, que frequentaram o Foro de São Paulo ao lado do MIR, admitiram nesta terça, 21, a culpa por mais de 21 mil sequestros, que ocorreram principalmente nos anos 1980, a mesma década em que os brasileiros viviam problema semelhante nas cidades. Seus membros também admitiram que cobraram resgates por reféns que já tinham sido mortos.

O efeito perverso dessa apologia da bandidagem é propagar os males que aterrorizam a sociedade. Na década de 80, o Brasil vivia uma epidemia de sequestros, que viravam manchetes nos jornais. Ocorreu então uma reação da sociedade, que cobrou medidas das autoridades. “Os sequestros vitimaram muitas pessoas de classe média e muitos ricos, que pressionaram por uma mudança na lei e por mais efetividade na polícia”, diz o advogado Flávio Meireles Medeiros, especialista em Direito Penal e ex-professor da PUC do Rio Grande do Sul. Uma lei de 1990 passou a considerar o crime de sequestro como hediondo, e suas penas foram esticadas. Os sequestradores de Abilio Diniz pegaram entre 26 anos e 28 anos. “O caso de Abilio e a configuração do sequestro como crime hediondo tiveram uma carga simbólica muito forte, o que levou o crime organizado a mudar sua lógica para praticar menos esse tipo de ação”, diz Alexys Lazarou, advogado de direito penal do Cascione advogados.

O depoimento de Lula, mais de três décadas depois do ápice dos sequestros, não estimulará uma nova onda desses delitos no Brasil. Hoje, os criminosos sabem muito bem o risco que correm. Também não há grupelhos armados de esquerda atacando desafetos ou roubando bancos. Mas o comportamento de elogiar os bandidos, nunca remediado, pode incentivar outras ações criminosas, que são contemporâneas e também se apresentam com uma roupagem ideológica.

Umas das maiores preocupações dos governos atualmente é com os protestos violentos, que podem paralisar países inteiros, a exemplo do que ocorreu com os Black Blocs no Brasil em 2013, com o Chile em 2019, com a Colômbia no ano passado e com o Equador atualmente. Na crise equatoriana, que teve início em 13 de junho, quatro pessoas já morreram.

Na Colômbia, no ano passado, um grupo de manifestantes criou o grupo Primeira Linha. Armados com escudos, facas e coquetéis-molotov, eles se colocavam na linha de frente dos protestos para enfrentar os policiais. Dezenas de seus membros ainda estão sendo identificados. Dezoito foram detidos há duas semanas. Um desses integrantes, Sergio Andrés Pastor González, foi acusado de vandalismo, tortura e agressões contra as forças de segurança. Segundo os promotores, ele e outros acusados cercaram dois pedestres, dizendo que eram policiais. Eles tiveram seus bens roubados, foram golpeados e feridos com facas. Os criminosos os amarraram a uma árvore, atearam gasolina e ameaçaram botar fogo.

Dois dias depois de Lula afirmar que agiu para soltar os “meninos” que sequestraram Abilio Diniz, o presidente eleito da Colômbia, Gustavo Petro, solicitou a libertação da “juventude” colombiana: “Somos a resistência da rebelião colombiana, das rebeliões contra a injustiça, contra um mundo que não deveria ser. Quantos jovens algemados, quantos jovens tratados como bandidos só porque tinham esperança, só porque tinham amor. Quero pedir ao procurador-geral que liberte a juventude. Libertem os jovens“. Os apoiadores de Petro se animaram e começaram a gritar: “Liberdade!”.

Duda Teixeira, Crusoé
24 de junho de 2022

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